Ele, ele, ele.


Duas da manhã. Eu, no meu quarto. Vesti o meu pijama e acabei de reparar que vesti as calças ao contrário, mas não tenho paciência para as despir e vestir outra vez, por isso vou deixá-las assim. Tenho frio, mas não me apetece vestir o casaco. Tenho fome, mas acabei de comer. Estava a pensar em ir deitar-me, mas o reflexo de alguém apoderou-se do meu pensamento. Alguém... Sim, só podia, esse alguém era ele. Ele que me fez duvidar de tudo. Ele que me fez acreditar nas mentiras e duvidar das verdades. Ele que mudou a minha vida, num simples bater de coração. Ele. Ele, ele e ele. Queria ir deitar-me, mas as lembranças fizeram com que deixasse de ter vontade para isso. Agora vejo uma cama, de casal, sem ninguém lá deitado. Cama de casal... Pois. Aquela onde há tempos ele se deitava comigo, me abraçava e dizia que não me ia deixar. 
É provável que não se lembre destes pormenores. Afinal de contas, de um momento para o outro parece que se esqueceu de todas as grandes juras e promessas que comigo fez. Prometeu-me a lua, e nem ao telhado de um edifício com 20 andares me levou. Limitou-se a fazer-me sofrer. Tínhamos acabado de fazer 2 anos de namoro, e decidiu abandonar-me. Escrever-me um bilhete, pequeno o suficiente, para me dizer "Desculpa, já não dá mais. Conheci outra rapariga. Não me procures, não te quero fazer sofrer. Sei que vais ser feliz.". Como me senti ao ler isto? Bem não foi. Digamos que isto aconteceu há três dias, e há três dias que não saio de casa. Há três dias que não vejo a luz do sol. Há três dias que estou fechada, neste apartamento, de pijama. Desliguei os telemóveis e não abro a porta a ninguém. Passo a maior parte do tempo no sofá, a ver televisão e a comer. Devo ter engordado, mas nem tenho vontade de me pôr em cima da balança. Não por medo de ver o meu peso, apenas porque não me apetece. Não me apetece nada. Tenho raiva, tão depressa me apetece gritar e bater-lhe, como me apetece ficar em casa sem fazer nada, sem nenhum objetivo para a minha vida. 
E os dias passam, as noites também (...)
6º dia. 

Acabei de acordar, estava a ir para a cozinha e reparei que debaixo da porta de entrada estava uma carta. Confesso que tinha esperanças que fosse dele, mas decidi abri-la e comecei a lê-la: "Olá amiga, reparei que não tens vindo ao café onde nos costumamos encontrar. Já sei o que se passou... Vi-o com outra rapariga a passear na praia. Suponho que não estejas bem, e como te conheço, aposto que ainda não saíste de casa. Não te quero estar a chatear com este assunto, apenas te peço isto: liga o telemóvel,e quando precisares, fala comigo. E lembra-te, se tu não sorrires para a vida, achas que ela vai sorrir para ti? Rasga essa página da tua vida. Vá, agora abre a porta. Vai à rua e vê a beleza que há à tua volta. Sê feliz. Beijinhos, Ana."  Era a minha melhor amiga do liceu, aquela que esteve sempre comigo, nos bons e maus momentos. Ela sempre teve razão. E agora também. Eu nasci sem ele, vivi imenso tempo sem ele. Por isso, agora também o vou conseguir.
Abri as janelas, fiz um bolo como não fazia há muito tempo. Liguei à Ana a agradecer as palavras dela. E senti, finalmente, que tinha voltado a nascer. Agora sou um novo EU. Vou ser feliz, está decidido.
(No dia seguinte, levantou-se e sorriu, olhou-se ao espelho e gostou de se ver, arranjou-se e foi tomar o pequeno almoço ao tal café, com a tal amiga, e com a tal, nova vida.)


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